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Catálogo Brasileiro do Céu Austral

Um Novo Catálogo de Céu Profundo do Hemisfério Sul Celeste. Um guia e um convite a um passeio pelas maravilhas dos céus do sul.

Por David Duarte Cavalcante Pinto

O primeiro catálogo de objetos de céu profundo do hemisfério sul foi compilado pelo astrônomo francês Abbé Nicholas Louis de la Caille. Em sua viagem, no século XVIII, ao Cabo da Boa Esperança, na África do Sul, além de nomear várias novas constelações daqueles céus até então desconhecidos dos europeus, Lacaille elaborou um catálogo de 10 mil novas estrelas, publicado em 1755, no qual destacou 42 “nebulosas” do sul. Constam desta lista alguns dos mais notáveis objetos do sul, como as Nuvens de Magalhães, Omega Centauri, Nebulosa da Tarântula, 47 Tucanae, Caixa de Jóias, entre outros.

Pouco tempo depois de Lacaille, um conterrâneo seu, Charles Messier, compilou o primeiro catálogo da história exclusivo de objetos nebulosos. Ao “caçar” cometas, Messier ia descobrindo objetos difusos e os catalogava, para que não mais o confundissem em sua busca por cometas. O Catálogo Messier foi publicado ao longo de 3 diferentes edições de 2 livros. O primeiro, “Mémoires de l'Academie”, publicado em 1774, contendo os objetos de M1 a M45. A segunda atualização, até M70, publicada em "Connoissance des Temps", publicado em 1780; e a final, na segunda edição deste último, publicada em 1781, com os 103 objetos Messier. Foram acrescentados algum tempo depois mais sete objetos, totalizando 110. É um belo resumo das mais notáveis jóias do céu profundo. O catálogo Messier tornou-se bastante popular e vem sendo usado por astrônomos amadores do mundo inteiro, que praticam o chamado Clube Messier e até a Maratona Messier. Contudo, o catálogo Messier foi elaborado a partir de observações feitas na Europa e, portanto, carece de numerosos objetos do céu austral.

Posteriormente, no começo do século XIX, o observador escocês James Dunlop, durante sua estada na Austrália, catalogou mais de 600 objetos de céu profundo, dos quais 142 vieram a ser confirmados por John Herschel alguns anos depois, enquanto trabalhava no Cabo da Boa Esperança. Herschel descobriu também outros astros do sul e, acrescentando os que ele e seu pai, Wilhelm Herschel já haviam catalogado no hemisfério norte, publicou o seu General Catalogue, o qual veio a ser atualizado pelo astrônomo dinamarquês Johann Dreyer algumas décadas depois, recebendo até hoje o nome de New General Catalogue (NGC) com o adendo Index Catalogue (IC).

Entre as contribuições mais recentes, vale ressaltar o catálogo de Patrick Caldwell Moore – cuja relação é composta, em mais da metade, de objetos de declinação meridional – e principalmente o catálogo de Jack Bennett, astrônomo amador sul-africano que, à semelhança de Messier, elaborou um catálogo de objetos difusos austrais para serem evitados em sua busca por cometas. Convém citar ainda os catálogos de aglomerados de Trumpler, Melotte e Collinder, como também os outros catálogos brasileiros, o JESS e o RB (Rea-Brasil).

Embora tenha havido essas valiosas e brilhantes tentativas de se fazer catálogos de céu profundo do hemisfério sul celeste, nenhuma delas alcançou – mesmo entre os observadores do nosso hemisfério, incluindo os brasileiros – a popularidade do catálogo Messier, que, como dito, não contempla as mais belas jóias dos céus do sul. Provavelmente por falta de divulgação ou pela não aceitação de alguns de seus aspectos, esses catálogos não tiveram seu uso solidificado na comunidade amadora brasileira. Talvez porque o de Lacaille seja demasiado curto, com apenas 42 objetos, ou porque o de Dunlop seja composto em sua maioria de objetos que não haviam sido descobertos antes, predominando aglomerados globulares e galáxias de magnitude muito tímida, ou ainda porque o de Bennett tenha visado somente os objetos parecidos com cometas, excluindo, por exemplo, as Nuvens de Magalhães, a Nebulosa de Eta Carinae, a Nebulosa de Órion, inúmeros aglomerados abertos, entre outros objetos.

Foi então, devido a essa carência experimentada pelos astrônomos amadores do hemisfério sul, que o autor, profundamente inspirado no trabalho dos predecessores citados acima, se motivou a produzir este novo catálogo, a fim de fornecer um belo resumo dos melhores objetos desta maravilhosa metade do céu.

Assim, diferentemente de Messier e Bennett, que selecionaram os objetos mais passíveis de serem confundidos com cometas, ou de Lacaille, Dunlop e dos Herschels, que os listaram pela própria descoberta, o compromisso maior deste catálogo é com a beleza. É a seleção dos mais belos objetos difusos do céu austral cuja observação é possível a partir de instrumentos de aberturas comumente encontradas em telescópios de astrônomos amadores.

O catálogo pretendia ser compacto, mas não muito curto, e completo, mas não tão extenso. Foram então eleitos 290 objetos de céu profundo, todos com declinação austral, ao sul do equador celeste. Entre aglomerados abertos, globulares, nebulosas e galáxias, o catálogo sugere a contemplação das mais belas preciosidades exclusivas do céu meridional. Os usuários do catálogo ainda desfrutarão dos inúmeros benefícios da prática observacional de céu profundo e sempre saberão o que mais vale a pena ser observado em seu hemisfério em cada época do ano.

A seleção buscou respeitar um limite máximo de cerca de 10 magnitudes, a fim de que a lista seja acessível a observadores com telescópios entre 4" e 8" de abertura (aproximadamente 100mm a 200mm). Entretanto, há alguns objetos de brilho mais fraco que esse limite, os quais – quer por sua beleza, quer pela carência da região em que se encontram ou quer por alguma característica peculiar – mereceram lugar neste catálogo.

Os objetos na lista são agrupados por constelação, e estas se sucedem observando a ordem crescente de Ascensão Reta, como também segue esta ordem a relação dos objetos dentro de cada constelação. Este parâmetro foi adotado a fim de facilitar a elaboração do plano de observação de quem deseja utilizar o catálogo, objetivando fornecer os objetos numerados já na sequência mais adequada à observação. Os primeiros catálogos, elaborados nos séculos XVIII e XIX, relacionavam os objetos à medida que iam sendo descobertos. Nos tempos atuais, normalmente escolhe-se a Ascensão Reta como único critério para a numeração de um catálogo, como no NGC; outros, mais raramente, a Declinação, como no Caldwell. Entretanto, considerando-se que num sistema bidimensional de coordenadas, como na Esfera Celeste, a menor distância entre dois pontos é dada em função de ambas as coordenadas, acabam sendo numerosos os casos em que dois objetos que se sucedem na numeração estão relativamente muito distantes um do outro caso seja usada como parâmetro apenas uma das coordenadas. Isso pode fazer com que o observador frequentemente vá a um objeto distante do anterior no céu e, depois, quando for observar o próximo na sequência, tenha de voltar para bem perto do primeiro. Destarte, agrupando os objetos por constelações, eles terão naturalmente uma relação de proximidade levando em conta tanto a Ascensão Reta como a Declinação, pois pertencem à mesma região do céu. E, fazendo as constelações se sucederem de acordo com a Ascensão Reta, permite-se que os objetos sejam observados na sequência natural em que nascem e se põem.

 

Catálogo Brasileiro do Céu Austral

 
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